Quarta-feira da 2ª semana da Quaresma
Primeira leitura
Livro de Jeremias 18,18-20.
Os inimigos de Jeremias disseram entre si: «Vamos fazer uma conspiração contra Jeremias, pois não nos faltará a instrução de um sacerdote, nem o conselho de um sábio, nem o oráculo de um profeta. Vamos feri-lo com a difamação, sem fazermos caso do que ele disser». «Ajudai-me, Senhor, escutai a voz dos meus adversários. Porventura assim se paga o bem com o mal? Eles abrem uma cova para me tirar a vida. Lembrai-Vos de que me apresentei diante de Vós, para Vos falar em seu favor, para deles afastar a vossa ira».
Análise histórica Primeira leitura
O pano de fundo desta passagem é a Jerusalém do século VII a.C., um período de instabilidade política diante das ameaças externas e de contestação interna ao papel dos profetas. Jeremias aparece como um agente isolado diante da elite religiosa e política, que planeja desfazer-se do seu incómodo questionamento. O texto expõe a resistência de um grupo dominante — sacerdotes, sábios e supostos profetas — em manter o seu estatuto e influência, recorrendo à difamação como arma para eliminar um crítico. A metáfora "abrir uma cova" designa a tentativa concreta de assassinato, uma estratégia violenta utilizada para silenciar vozes dissonantes. Jeremias remete a Deus o julgamento, destacando que falou em defesa desses mesmos adversários, sublinhando a ironia da sua situação. O núcleo do texto está na tensão entre o compromisso profético e a reciprocidade negativa de uma comunidade que responde à intervenção benéfica com perseguição e morte.
Salmo
Livro dos Salmos 31(30),5-6.14.15-16.
Livrai-me da armadilha que me prepararam, porque Vós sois o meu refúgio. Em vossas mãos entrego o meu espírito, Senhor, Deus fiel, salvai-me. Porque eu ouvia os gritos da multidão: «Terror por toda a parte!», quando se coligaram contra mim e decidiram tirar-me a vida. Eu, porém, confio no Senhor: Disse: «Vós sois o meu Deus, nas vossas mãos está o meu destino». Livrai-me das mãos dos meus inimigos e de quantos me perseguem.
Análise histórica Salmo
Este salmo insere-se num contexto ritual de perseguição individual ou comunitária, no qual o orante recorre à proteção divina diante de complôs e ameaças. A expressão "em vossas mãos entrego o meu espírito" era usada em situações litúrgicas de entrega radical, refletindo total dependência em relação à proteção de Deus. A menção ao "terror por toda a parte" sugere um ambiente marcado por perseguição deliberada e medo, possivelmente num contexto de cerco urbano ou repressão interna. O salmo funciona como instrumento coletivo de gestão do medo: ao declarar confiança em Deus, o leitor ou a assembleia reafirma laços de pertença ao grupo e fortalece a coesão diante da adversidade. O centro desta liturgia está na dinâmica de entrega pública à proteção divina como antídoto à experiência do abandono e do perigo.
Evangelho
Evangelho segundo São Mateus 20,17-28.
Naquele tempo, enquanto Jesus subia para Jerusalém, chamou à parte os Doze e, durante o caminho, disse-lhes: «Vamos subir a Jerusalém e o Filho do homem vai ser entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas, que O condenarão à morte e O entregarão aos gentios, para ser por eles escarnecido, açoitado e crucificado. Mas, ao terceiro dia, Ele ressuscitará». Então, a mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com os filhos e prostrou-se para Lhe fazer um pedido. Jesus perguntou-lhe: «Que queres?». Ela disse-Lhe: «Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda». Jesus respondeu: «Não sabeis o que estais a pedir. Podeis beber o cálice que Eu hei de beber?». Eles disseram: «Podemos». Então Jesus declarou-lhes: «Bebereis do meu cálice. Mas sentar-se à minha direita e à minha esquerda não pertence a Mim concedê-lo; é para aqueles a quem meu Pai o designou». Os outros dez, que tinham escutado, indignaram-se com os dois irmãos. Mas Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis que os chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem entre vós quiser tornar-se grande, seja vosso servo e quem entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso escravo. Será como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção dos homens».
Análise histórica Evangelho
O texto situa-se na fase final do ministério de Jesus, durante a sua última viagem para Jerusalém. Jesus antecipa conscientemente a sua morte pelas autoridades religiosas e políticas (“os príncipes dos sacerdotes”, “os escribas”, e os “gentios”), e emprega o termo "Filho do homem" para se referir a si mesmo, conectando-se à tradição apocalíptica judaica sobre o julgamento e a redenção. O pedido da mãe dos filhos de Zebedeu reflete expectativas políticas e messiânicas do seu círculo íntimo, no qual posições à direita e à esquerda equivalem a prestígio e poder em estruturas régias tradicionais. O "cálice" simboliza destino de sofrimento e morte, usado por Jesus para inverter a lógica ambicionada pelos discípulos. A exposição pública do contraste entre o modelo de autoridade dominadora — “os chefes das nações” — e a inversão proposta (“servir” em vez de dominar) marca uma ruptura radical na organização de relações internas. O eixo central do episódio é a reconfiguração da ideia de poder: do comando opressivo para o serviço autêntico, exemplificado pela própria entrega de Jesus.
Reflexão
Leitura integrada: vulnerabilidade, conflito e redefinição de poder
A composição destes textos articula de modo direto as consequências da denúncia profética, a gestão do medo face à perseguição e uma ruptura na organização tradicional do poder. O movimento coletivo das leituras exibe um percurso que vai do isolamento de uma figura profética atacada pelo sistema (Jeremias), passa pelo ritual de entrega e confiança sob ameaça (Salmo), até à redefinição do significado de autoridade apresentada por Jesus em Mateus.
Destacam-se três mecanismos explicitamente encadeados: preservação do status dominante via eliminação do dissidente, construção de refúgio coletivo baseado na confiança em algo superior diante da hostilidade, e reprogramação do conceito de liderança através do serviço até à autossacrifício. O conflito em Jeremias mostra como atores instalados recorrem tanto à violência física quanto simbólica para neutralizar desafios à ordem. O salmo transforma o medo em confiança partilhada, incorporando a experiência do perigo na prática litúrgica para manter a coesão do grupo. Já o evangelho desafia a raiz da estrutura de mando, propondo que a grandeza é medida pelo serviço decidido — um choque frontal com sistemas que premiam a dominação.
Hoje, estas leituras permanecem relevantes ao exporem padrões recorrentes: a dificuldade de lidar com dissenso, o poder dos rituais de confiança coletiva, e a tensão constante entre formas de liderança baseadas no controle e aquelas fundadas no cuidado e serviço. O ensinamento composicional unifica-se ao mostrar como a vulnerabilidade, quando integrada na experiência e estrutura da coletividade, pode transformar e redefinir o sentido do poder e da autoridade.
Abre uma nova conversa com estes textos.
O texto é enviado para o ChatGPT através do link. Não partilhes dados pessoais que não queiras partilhar.