São Simão e São Judas, apóstolos – festa
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Primeira leitura
Carta aos Efésios 2,19-22.
Irmãos: Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, que tem Cristo como pedra angular. Em Cristo, toda a construção bem ajustada cresce para formar um templo santo do Senhor; e, em união com Ele, também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito Santo, morada de Deus.
Análise histórica Primeira leitura
O texto parte de um contexto em que comunidades cristãs originadas no mundo greco-romano enfrentam tensões de identidade, principalmente quanto à inclusão de não-judeus. O autor aposta numa redefinição radical de pertença: não mais há estranhos ou forasteiros, mas todos são agora concidadãos dos santos e parte da "família de Deus". Este novo núcleo identitário é construído sobre a imagem do templo, familiar tanto a judeus quanto a povos de religião greco-romana, mas aqui deslocada: o templo não é um edifício, mas uma coletividade de pessoas. Destaca-se a menção aos apóstolos e profetas como fundação, enquanto Cristo ocupa o lugar de "pedra angular", expressão oriunda da construção civil, fundamental para a estabilidade da estrutura. O movimento central do texto consiste na transformação de fronteiras religiosas em um sentido ampliado de pertença, articulado através da imagem arquitetónica do templo comum.
Salmo
Livro dos Salmos 19(18),2-3.4-5.
Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. O dia transmite ao outro esta mensagem e a noite a dá a conhecer à outra noite. Não são palavras nem linguagem cujo sentido se não perceba. O seu eco ressoou por toda a terra e a sua notícia até aos confins do mundo.
Análise histórica Salmo
Este salmo manifesta uma postura litúrgica de admiração e proclamação diante da ordem cósmica. Em contexto de ritual coletivo, a comunidade reconhece os "céus" e o "firmamento" como agentes que 'anunciam' e 'proclamam' a glória divina, sem recorrer à linguagem humana habitual. A comunicação aqui opera através do espetáculo natural—o ciclo do dia e da noite —, cujos sinais "ressoam" por toda a terra. A ausência de palavras reforça a universalidade da mensagem: o impacto do divino é percebido em toda cultura, além dos limites éticos ou religiosos de um povo. A dinâmica principal do salmo reside na legitimação universal do divino através dos sinais naturais, garantindo um fundamento partilhado antes de qualquer linguagem ritual.
Evangelho
Evangelho segundo São Lucas 6,12-19.
Naqueles dias, Jesus subiu ao monte para rezar e passou a noite em oração a Deus. Quando amanheceu, chamou os discípulos e escolheu doze entre eles, a quem deu o nome de apóstolos: Simão, a quem deu também o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu, Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelota; Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor. Depois, desceu com eles do monte e deteve-Se num sítio plano, com numerosos discípulos e uma grande multidão de pessoas de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sidónia. Tinham vindo para ouvir Jesus e serem curados das suas doenças. Os que eram atormentados por espíritos impuros também ficavam curados. Toda a multidão procurava tocar Jesus, porque saía dele uma força que a todos sarava.
Análise histórica Evangelho
O texto situa-se no momento inicial da formação de um novo grupo de seguidores, sob condições de expectativa social elevada na Palestina do século I. Jesus retira-se para rezar, gesto que sublinha a autoridade recebida por meio de comunhão direta com Deus e prepara a escolha dos Doze: número que evoca as doze tribos de Israel e sugere uma fundação nacional-simbólica. A nomeação pessoal dos apóstolos é uma clara afirmação de liderança e outorga de missão. O encontro posterior ocorre numa "planície" (em oposição ao monte como espaço de eleição), rodeado por multidões provenientes de várias regiões, inclusive de fora da Judeia (Tiro e Sidónia), reconhecendo-o como centro de cura e ensino. "Força que cura" e libertação de "espíritos impuros" são imagens concretas de poder restaurador e de mediação entre o divino e o humano, compondo um ambiente de transformação coletiva. O eixo do texto é a instituição de um núcleo dirigente como novo Israel, imediatamente projetado sobre uma multidão diversa que busca cura e integração.
Reflexão
Reflexão integrada sobre as três leituras
A composição destes textos articula redefinição de pertença e comunicação universal, tendo como pano de fundo a fundação e expansão de uma nova comunidade. O primeiro mecanismo central é a constituição de identidade coletiva por meio de figuras fundadoras (apóstolos e Cristo como "pedra angular"), evidenciada tanto em Efésios como no Evangelho de Lucas, onde a eleição dos Doze representa um gesto de ordenação histórica e continuidade com Israel, mas também de abertura a novas fronteiras (como ilustra a multidão vinda de toda a região, inclusive de territórios "estrangeiros").
A segunda dinâmica é a universalização da comunicação do divino, explicitada no salmo: antes de qualquer construção institucional, há um eco que ressoa por toda a terra, acessível a todo ser humano, independentemente de vínculo cultural ou religioso. Isto funciona como pré-condição e legitimação para o surgimento de comunidades que se querem abertas e inclusivas.
Por fim, a ação de cura e integração social de grupos marginais aparece como consequência desta arquitetura: não só a estrutura é nova, mas a sua razão de ser é tornar possível a reintegração e transformação da vida coletiva.
O fulcro da composição está no cruzamento entre fundação identitária, universalidade do acesso ao divino e integração dos que estavam à margem, sugerindo que comunidades duradouras se constroem tanto por raízes quanto por abertura efetiva ao outro.
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